- O relógio marca quatro e trinta e sete da tarde, horário de Brasília. E no ônibus de algum lugar em São Paulo, pessoas encaloradas e mal-humoradas disputam nem que seja um centímetro daquele mísero espaço. Está calor, muito calor. Com isso, os fétidos, fedem mais; e ele não gosta disso, não mesmo. Coisa que não suporta é gente fedida, suada. Mas não se tem outro jeito, tem que ficar ali, de pé, tentando assim como todos os outros, aumentar seu espaço que gira em torno de seu umbigo.
Em meio a todo aquele odor de pessoas velhas que não usam anti-transpirante, de pessoas jovens que trabalham o dia todo naquela cidade-lixo, de crianças pequenas que precisam de fraldas limpas e mães suadas, muito suadas por toda aquela situação. Em meio a tudo isso, ele avista uma garota sentada ao lado da janela. Dava pra ver seus olhos reparando claramente na tatuagem dela. Golfinhos. Três golfinhos, exatamente.
A senhora ao lado percebe o quanto o jovem fica agitado contornando a garota com os olhos brilhantes. Ela gosta disso e chega a uma conclusão feliz, depois de um péssimo dia de trabalho, como todos os outros. Esboça um sorriso e murmura algo em voz baixa e rouca. Balança a cabeça e se julga tola. Continua ali, suada e pensativa.
Ele não enxerga mais nada à sua volta. Não vê o policial doente, a criança graciosa, a senhora pensativa. Tem olhos apenas para a tatuagem e o todo que a acompanha. Olha excitado para cada detalhe da nuca, dos golfinhos. Cabelo amarrado, deixando assim que os claros e ralos pêlos se confundissem com os fios castanhos do calebo. Ele imagina tudo aquilo que um garoto de dezenove anos como ele imagina. Não liga, ninguém está reparando mesmo. E outra, ninguém tem nada a se meter em sua vida, muito menos em seus pensamentos pevertidos, ou não.
Ele quer ver os seios, não consegue. Gente demais, gente fétida que ocupa muito espaço. Estica bem o pescoço, inclina o corpo. Fica nas pontas dos pés. Sente algo. Algo roçando nele. Rapidamente olha para trás. Um homem que aparenta uns 30 anos de idade, boné, camiseta larga, bermuda e tênis sujo. Tenta reagir, ou agir. Nada. Não tem como, nem mesmo consegue virar seu corpo magro. Então resolve fingir que nada acontece. Parece-lhe a opção menos pior no momento. Pensa nela. Pensa muito nela, e nos golfinhos. - A garota se move. Ele estático, observa. Ela levanta, começa a andar. Caminha em sua direção, custosamente. Começa a se esfregar nas outras pessoas, esfrega muito. E ele ali, tentando alcançá-la com os olhos. Ela vem se aproximando. Passa pelo homem de antes, o cara força. Mas nada além disso, ela já havia passado. A garota, exausta, passa a mão na nuca e joga o pescoço para direita. Já está de cara com ele. Ele olha, e olha, e olha.
Ela de costas, quase indo embora, descendo para uma estação qualquer. Agora ela sente algo úmido e quente contornando o primeiro golfinho, o maior; e depois uma mão no ombro. Ela tenta algo, mas ele segura. Ela faz força e ele contorna todos os golfinhos com a língua. Ela grita, grita e começa a chorar, desesperada. Ele sai correndo; pisa no pé de alguém, de alguém e de alguém; desce ali mesmo, sem saber aonde está.
Enquanto uns são mais espremidos que os outros, a senhora já não pode mais voltar feliz para casa e novamente murmura algo em voz baixa e rouca. A garota fica do mesmo jeito, chorando, por minutos. Certas tardes são assim, deve ser mesmo o calor.
- Aos passageiros encalorados, suados.
- Ouvindo: Música Urbana 2 - Legião Urbana
"E a matilha de crianças sujas no meio da rua -
Música urbana.
Nos pontos de ônibus estão todos ali: música urbana."
- Frase: "A vida é se atirar do décimo andar e, ao passar pelo oitavo, constatar: 'Até aqui tudo bem'. E ao chegar ao segundo andar, refletir: 'Bem, se eu não me machuquei até aqui não é nesse pedacinho à toa que eu vou me arrebentar'.” Millôr Fernandes


7 comentários:
UOU! Jogou com todos os sentidos: visão, audição, olfato, tato e paladar! Inspiração hien!
Até!
então valeu a pena eu ter vindo aqui :D
fico, realmente, muito bom.
a descrição, tudo, perfeito amiga!
acho que a gente devia escrever outro texto pra postar no Brigadeiro Mal Comido, que acha?
Bêjo-estalado
Talvez o 2° melhor ja publicado nesse despretencioso blog...
mostrou diferentes caracteristicas ainda nao conhecidas dessa autora q mto lê...
talvez seja por isso...
usou bastante narrativa, e descriçao... embora tenha perdido um pouco( mas soh um pouco) da dinamicidade...
AmO...
Beijo-piercing-colorido-de-queijo
Pobres paulistanos .
o sentimento da moça ao levar a "linguada" me fez lembrar uma frase de um famoso pensador libano-brasileiro "Estupra mais não mata"
A Sabedoria da senhora é tão destacada qnto minimizada gostei muito .
de resto achei um relato , coisas que acontecem todos os dias , afinal , pessoas gostam de ver pele , e tatuagem mostra (ou mostrava) independência acho que foi isso que atraiu o rapaz.
Sensação ao acabar de ler ? vontade de tomar banho.
Junia! Tudo certo?!
Primeiramente, muito legais seus Blogs! Tanto esse mais moderno, quanto aquele mais "medieval"! rs
Pois é, querendo fazer Letras?! Um conselho?! Vai estudar de verdade! rs
Brincadeira, claro! (senão o que seria de mim?!).
Bom, vc já tem a primeira característica importante do estudante de letras: gosta de escrever! E já escreve bem!
A faculdade é interessante (ou pelo menos, a idéia era pra ser). Vc vai ver muita coisa boa, e muita coisa que os professores só estão interessados em te mostrar por que eles estudam aquilo...
De qualquer forma, a faculdade te abre um leque para muitos autores, temas, estilos, que vc demoraria um pouco para conhecer sozinho...
Bem, como viu, eu gosto de falar disso! Sou quase um orientador profissional! (pergunte pra Laís!, rs).
Como sou completamente desmemoriado, se vc quiser, a gente conversa sobre isso no msn, mas tem que me lembrar!
Bjs! Até mais!
Ass: Vivaaaaaaaaaaaldo.
Oi tudo bom?
gostei muito do seu texto! muito legal! o/
sou nova aqui e to pedindo apoio...
vai no meu e ve se você gosta. =)
bjos.
Meus problemas já estão melhores!
Obrigada por se preocupar, volte mais vezes!
Beijos
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