
"Seus dentes e seus olhares/ Mastigam meu corpo e juízo/ Devoram os meus sentidos/ Eu já não me importo com isso/ Então são mãos e braços/ Beijos e abraços/ Pele, barriga e seus laços.." Leoni






"E a matilha de crianças sujas no meio da rua -
Música urbana.
Nos pontos de ônibus estão todos ali: música urbana."
Quando um dia, acordou e percebeu que em sua própria volta tinha aquele poço de porquês para ser feliz; ela então, decidiu se olhar no espelho, assim como os dramas propunham. Resolveu descer do trono e pular Carnaval com a vida. Ela faria do seu jeito agora. Preocuparia em ser gentil, e não apenas certa. Despreocuparia e pensaria. Seria serena e sábia para continuar. Teria motivos de sobra para cantar, para dançar, remexer e acordar todo dia. Teria amigos bobos, matemáticos, sumidos e assumidos, para conversar na aula que quisesse e ainda, descolar uma boa cola. E depois de tudo, teria para onde fugir e aprenderia novamente a amar sem em troca amada ser. Teria com quem cantar e contar a qualquer momento. E também teria abrigo quando já não se pudesse mais. Só para ver deitar o sol sobre os seus braços, só para fazer do seu sorriso um abrigo. Para ser feliz, não importando a circunstância.








Virou-se de lado na cama. Olhou o despertador e afundou a cabeça no travesseiro. Segunda-feira, que merda.
Sete e trinta.
Fechou os olhos por um segundo só.
Sete e trinta e cinco.
Acordou novamente. Fez a barba, cortou um pouquinho do lábio. Apertou com força os dentes contra parte de dentro da bochecha, por causa do susto. Agora sua boca sangrava por dentro e por fora. O gosto do sangue era bom, até. Vedou o corte no lábio com um pedaço de papel higiênico, mas para o de dentro não arranjou solução senão engolir os litros e litros de sangue que lhe escorriam pela boca. Sufocou com o sangue. Pulou sentado na cama, assustado.
Sete e quarenta e quatro.
Levantou da cama e foi direto para a cozinha. Tomou o café em dois ou três goles, mas não comeu nada. Uma lagartixa o encarava ao lado da xícara. Ele pega uma faca, corta a lagartixa no meio e espalha manteiga dentro dela. Morde a lagartixa. Gostoso, mas alguma coisa está estranha. “Droga, lagartixa sem molhar no café não tem o mesmo gosto.” Deixou a lagartixa pela metade e foi para o trabalho.
Passou a mão no telefone, mas a dona Paulina, sua professora do primário cutuca suas costas.
_ Nu?!
Como ele não tinha percebido? Olhou para os lados e viu todos os seus colegas rindo. Pelado, na sala de aula! Ele tenta sair correndo. Corre, corre, corre, não se move. Então o Zorro chega e lhe pedi uma jujuba verde.
Oito e dezenove.
Bateu o olho no despertador e saiu correndo. Vestiu a primeira roupa que viu pela frente, mostrou as cerdas da escova para os dentes e conseguiu pegar o ônibus para chegar ao trabalho a tempo.
Abre a porta da sua sala e vê uma moça sentada na sua mesa e pergunta:
_ Quem é você?
_ Bromélia - ela berra.
Ah, tudo mais do que explicado, era a Bromélia. “Ei, mas essa é minha sala!” Nisso, seu chefe entra na sala vestido de bailarina, lhe manda uma banana, sobe num unicórnio e sai voando pela janela.
Oito e vinte e dois.
Pulou da cama. Sonhos, quantos sonhos!, e já devia estar no trabalho à essa hora. Veste-se com pressa, vai para a cozinha e se depara com uma lagartixa na mesa. “Não, de novo, não”. Tenta abrir os olhos, já que sabe que está sonhando. Não consegue. Abre a janela do quarto e vê a professora do primário passar pela rua. Tenta abrir os olhos e acordar novamente, sem sucesso.
Vai para o trabalho assim mesmo. O chefe diz que vai conversar muito seriamente com ele assim que voltar da apresentação de balé de sua filha. A filha do chefe aparece com um unicórnio de brinquedo na mão, vestida de bailarina.
Chuta a filha do chefe para longe. Enfia uma direita no olho esquerdo do chefe. Abre a porta de sua sala e grita “Bromélia aqui?! Não!”. O chefe reage embasbacado.
_ O que tá acontecendo aqui?
_ Eu não como lagartixa! Eu não quero comer lagartixa!
_ Você tá bêbado?
_ Se eu correr, eu quero me mexer!
_ Você tá bêbado!
_ Cadê o Zorro, hein?
_ Seu louco!
_ Eu não tô pelado aqui, viu? Eu me vesti!
Dez e quarenta e quatro.
Acordou num hospício. A obrigação de levantar cedo numa segunda-feira o deixou louco, louco.