Vira-se de lado na cama. Olha o despertador e afunda a cabeça no travesseiro.
Segunda-feira, que merda.
Cinco e trinta e cinco.
Fecha os olhos por um segundo só.
Cinco e quarenta e quatro.
Acorda novamente. Faz a barba, corta um pouquinho do lábio. Aperta com força os dentes contra a parte de dentro da bochecha, por causa do susto. Por que está sangrando tanto?
Seis e quatro.
Levanta da cama e vai direto para a cozinha. Microondas e fast-food de ontem. Batata frita murcha e coca choca. Pega sua pasta preta e vai trabalhar. Abre a porta do escritório, algo mudou. Sente um cutucão nas costas: coloco você na rua se ficar enrolando no serviço... Montando, montando. Agora, seu novo emprego é montar pneus de carros antigos. Carros antigos? É. Faz muito calor e o trabalho é exaustivo, não se pode parar um minuto, não tem cafezinho nem nada. O suor escorrendo como pulos na piscina de meia em meia hora. Trabalha o dia todo até escurecer e depois recebe, é muito pouco, não dá nem para comprar uma boa cachaça. Volta para casa, cansado e pensativo, só quer saber de acodar desse sonho maldito. Faz força, sente sua cama macia por deibaxo do seu corpo suado.
Seis e trinta e nove.
Acorda. Hoje é dia de protesto. E mais cedo que o normal, não dormiu direito, está ansioso. Coloca as calças devagar, respira fundo e certifica-se de que está realmente acordado. Todos param a rua. Com um cartaz na mão, diz: respeito aos animais, respeito aos animais, respeito aos animais... Tem jaula com gente, tem gente com o rosto pintado de leão, cachorro, vaca... Um repórter o entrevista, o que seria mais importante para fazer com que a mudança aconteça? A gente tem que parar de contribuir com o sofrimento dos animais. As pessoas têm pensamentos diferentes, concordo, mas tem coisa que é simplesmente inadmissível, como promover a morte. Ouvia suas palavras de trás pra frente, ah não, está sonhando de novo? Pisca os olhos com força, esfrega, coloca as mãos na cabeça. Está cortada! Corre um homem em sua direção com um machado nas mãos. Volta aqui, seu porco imundo, você não me escapa de hoje na janta!
Sete e vinte.
Bate o olho no despertador e sai correndo. É um adolescente com tênis coloridos bem amarrados (como se não saíssem de lá nem para lavar). A calça, remendada por etiquetas de todos os nomes. No peito, um I love NY. Nos dedos, um Hollywood. E na cabeça, uma identidade de marca registrada. Promoção 24 horas. Essa eu não posso perder de jeito nenhum, rapidinho entra na loja. É, voltei, meu pai inteirou o que estava faltando. Bom, então, vou levar, pode pregar na minha testa essa Coisa. E sai, agora, coisando alegremente, sumindo como num sonho...
Oito e quarenta.
Pula da cama. Sonhos, quantos sonhos! Eu já deveria estar na faculdade essa hora. Vou pra cozinha, mas agora de verdade. Microondas e fast-food de ontem. Batata frita murcha e coca choca. Pega sua pasta preta e vai caminhando. Enfrenta a subida, enfrenta o calor, enfrenta o mundo inteiro e chega. Entra na sala: novela, música, festa, o "bom dia" de papo. Seu professor interrompe a gracinha com os olhos arregalados. Nu, você está nu! Nu?! Como ele não tinha percebido? Pelado, na sua sala. A sala inteira olha, aponta, morre de rir. Tenta sair correndo. Corre, corre, corre, corre sem sucesso. Está amarrado num mundo em que a realidade não importa, o que importa é a ilusão.
Nove e cinco da manhã.
Acorda em um clínica. A obrigação de levantar cedo numa segunda-feira o deixou louco, louco.
Eu gosto de pegar textos que já fiz e jogar nos trabalhos de escola. Esse é um exemplo. Parafraseando e discutindo os textos que me eram de leitura obrigatória, saiu essa remontagem do meu primeiro post.Espero que vocês tenham gostado.
Leia!
Leia e comente.
sexta-feira, novembro 27
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