Leia!

Leia e comente.

Sexta-feira, Novembro 27

Desenho livre de uma realidade retilínea, uma tangente e um círculo

Vira-se de lado na cama. Olha o despertador e afunda a cabaça no travesseiro.
Segunda-feira, que merda.
Cinco e trinta e cinco.
Fecha os olhos por um segundo só.
Cinco e quarenta e quatro.
Acorda novamente. Faz a barba, corta um pouquinho do lábio. Aperta com força os dentes contra a parte de dentro da bochecha, por causa do susto. Por que está sangrando tanto?
Seis e quatro.
Levanta da cama e vai direto para a cozinha. Microondas e fast-food de ontem. Batata frita murcha e coca choca. Pega sua pasta preta e vai trabalhar. Abre a porta do escritório, algo mudou. Sente um cutucão nas costas: coloco você na rua se ficar enrolando no serviço... Montando, montando. Agora, seu novo emprego é montar pneus de carros antigos. Carros antigos? É. Faz muito calor e o trabalho é exaustivo, não se pode parar um minuto, não tem cafezinho nem nada. O suor escorrendo como pulos na piscina de meia em meia hora. Trabalha o dia todo até escurecer e depois recebe, é muito pouco, não dánem para comprar uma boa cachaça. Volta para casa, cansado e pensativo, só quer saber de acodar desse sonho maldito. Faz força, sente sua cama macia por deibaxo do seu corpo suado.
Seis e trinta e nove.
Acorda. Hoje é dia de protesto. E mais cedo que o normal, não dormiu direito, está ansioso. Coloca as calças devagar, respira fundo e certifica-se de que está realmente acordado. Todos param a rua. Com um cartaz na mão, diz: respeito aos animais, respeito aos animais, respeito aos animais... Tem jaula com gente, tem gente com o rosto pintado de leão, cachorro, vaca... Um repórter o entrevista, o que seria mais importante para fazer com que a mudança aconteça? A gente tem que parar de contribuir com o sofrimento dos animais. As pessoas têm pensamentos diferentes, concordo, mas tem coisa que é simplesmente inadmissível, como promover a morte. Ouvia suas palavras de trás pra frente, ah não, está sonhando de novo? Pisca os olhos com força, esfrega, coloca as mãos na cabeça. Está cortada! Corre um homem em sua direção com um machado nas mãos. Volta aqui, seu porco imundo, você não me escapa de hoje na janta!
Sete e vinte.
Bate o olho no despertador e sai correndo. É um adolescente com tênis coloridos bem amarrados (como se não saíssem de lá nem para lavar). A calça, remendada por etiquetas de todos os nomes. No peito, um I lovo NY. Nos dedos, um Hollywood. E na cabeça, uma identidade de marca registrada. Promoção 24 horas. Essa eu não posso perder de jeito nenhum, rapidinho entra na loja. É, voltei, meu pai inteirou o que estava faltando. Bom, então, vou levar, pode pregar na minha testa essa Coisa. E sai, agora, coisando alegremente, sumindo como num sonho...
Oito e quarenta.
Pula da cama. Sonhos, quantos sonhos! Eu já deveria estar na faculdade essa hora. Vou pra cozinha, mas agora de verdade. Microondas e fast-food de ontem. Batata frita murcha e coca choca. Pega sua pasta preta e vai caminhando. Enfrenta a subida, enfrenta o calor, enfrenta o mundo inteiro e chega. Entra na sala: novela, música, festa, o "bom dia" de papo. Seu professor interrompe a gracinha com os olhos arregalados. Nu, você está nu! Nu?! Como ele não tinha percebido? Pelado, na sua sala. A sala inteira olha, aponta, morre de rir. Tenta sair correndo. Corre, corre, corre, corre sem sucesso. Está amarrado num mundo em que a realidade não importa, o que importa é a ilusão.
Nove e cinco da manhã.
Acorda em um clínica. A obrigação de levantar cedo numa segunda-feira o deixou louco, louco.





Eu gosto de pegar textos que já fiz e jogar nos trabalhos de escola. Esse é um exemplo. Parafraseando e discutindo os textos que me eram de leitura obrigatória, saiu essa remontagem do meu primeiro post.Espero que vocês tenham gostado.

Terça-feira, Novembro 17

Disfarço o inferno.
Enfeito de paraíso azul do céu.

Sábado, Junho 13

(...)


seus seios

dois
duas mãos cheias

sua barriga

toda

minha boca cheia
de gosto

molhada

lambendo

seu gosto

minha língua

no seu umbigo

subindo



(...)



barriga sua

minha

subindo nela

com as mãos

minhas

testando

você

descobrindo
você

mais um lugar
no coração

peito

colo

pescoço



(...)



inteira

você



(...)



descobre

a nuca

agarra

com a mão
molhada

cabelo
molhado

suor

arrepio

língua

sabor seu
em mim
língua de novo
de novo



(...)



mordida
de beijo
mordidas

orelha

pescoço

queixo

um beijo

dois

três

multiplica

soma

você

mais

eu



(...)



no beijo

embaixo

as coxas

trançando

transando

transe

virilha

vulva

minha

sua



(...)



sua

na minha

mais

e

mais
em mim
você



(...)



minha língua

você

abre

contrai

levanta

forte

devagar

geme

mais

clitóris

gostoso

gosto

seu



(...)



eu

encher a mão

na coxa

apertar
devagar
forte

a bunda

pra cima

cintura

traz

pra perto

de mim

você

molhando

eu

molhando

você

sem ar

respira

meu ar

todo lugar

seu cheiro

respira

suspira

geme

sussurra

grita

eu



(...)



você

você

você

toda

tudo

você

você

você



(...)



eu
em
você

você

em

eu

você

ama

eu

eu

ama

você



(...)



sem fim

fim

Quarta-feira, Junho 3

Tragar a vida num papel..

Sexta-feira, Maio 29

Feliz Maria

Maria, menina que a pátria pariu em dia de meia na janela e família reunida, faz aniversário. É Natal de novo, 20 anos e horário de pico para enfrentar numa sexta-feira. Olha no relógio, perderá a novela e seu pai já estará fora de casa quando chegar para receber os parabéns. Mas o problema é perder a cena do beijo e a música de abertura, porque o pai sempre deixa o perfume em cima da cama.
No ônibus, de pé, de cabelos presos e de tinta vermelha escorrendo pela nuca, seu suor se mistura com a sujeira da cidade, que agora é a sujeira de suas mãos pequenas, que se esconde debaixo de suas unhas também tingidas. Com a barriga que salta saliente , Maria – assim como os outros – tenta aumentar seu espaço e respirar algo que não se pareça com cheiro de gente, ou de ônibus.
Com isso, levanta o pescoço e resolve forçar os olhos no intuito de encontrar algo que lhe diga num sorriso que hoje é dia de ser feliz. Vê golfinhos. Três deles no pescoço de uma menina. No balanço do ônibus, se confunde, não sabe se quer tê-los em si ou para si. Nas pontas dos pés, inclina o corpo e olha como quem quer tirar uma foto e guardar na carteira. E minuto depois, olha como se quisesse guardá-la no coração.
Pede licença, empurra um e outro e chega mais perto. E depois mais perto ainda. Pensa duas vezes em descer no próximo ponto ou contornar os golfinhos um de cada vez. Maria sente que está tão perto de ter uma data que realmente marque um fato, que mesmo trêmula, avança com a boca entreaberta e, num segundo, sente o gosto deles. De todos eles e da menina. Os golfinhos ficam vermelhos e a menina sai chorando a água e pisando o pé de alguém. Certas comemorações são assim, mais marcantes em dias de calor.